domingo, 16 de junho de 2013

A história que Deus escreveu pra mim

Às vezes muitas pedras surgem pelo caminho/ Mas em casa alguém feliz te espera, pra te amar/ Não, não deixe que a fraqueza tire a sua visão/ Que um desejo engane o teu coração/ Só Deus não é ilusão/ E se por acaso a dor chegar, ao teu lado vão estar/ Pra te acolher e te amparar/ Pois não há nada como o lar.
“Tua Família”- Anjos de Resgate
Sábado. Nove da manhã. Junior está atrasado para a palestra que irá dar na Paróquia Santa Cruz de Itaberaba que fica na Freguesia do Ó. Excepcionalmente hoje, Junior chegou ao local as dez em ponto, horário que achava que a palestra estava marcada, quando descobriu que estava adiantado e que sua palestra só seria as onze.
O imprevisto permitiu que Junior fosse a padaria tomar um café, pois não tinha conseguido tomar em casa e aproveitou para dar entrevista à jornalista que o acompanhava.
Ao voltar à igreja, Junior é recebido pelos conhecidos com abraços e sorrisos calorosos. Muito humilde, ele apresenta as suas companhias e aguarda para começar a palestra, que acontecerá no salão atrás da paróquia, destinada a 70 jovens.
Antes da palestra começar, uma pequena peça teatral é montada para receber o palestrante, com direito a rainha dos baixinhos e tudo.
Quando Junior é apresentado, um silêncio impera na sala, todos estão ansiosos para ouvir o que ele tem dizer. Junior tem o poder da retórica e suas palavras conseguem alcançar muito mais que os ouvidos das pessoas, conseguem alcançar seus corações.
Junior conta aos jovens como aprendeu a amar seu pai, seu avô, seu bisavô e seu tataravô depois de conhecer a história de vida deles. Ao longo de suas narrações, as próprias experiências de vida e as histórias que seus amigos contam, servem de exemplo para mostrar que a família, muitas vezes, está além dos laços de sangue.
Junior canta e os jovens pensam. Junior canta e os jovens choram. Junior canta e os jovens cantam. Junior canta e os jovens se levantam e abraçam seus pais.
Fui apresentada a Nelson da Silva Pinto Junior na Paróquia Santa Cruz de Itaberaba pela minha cunhada Daniela. Nelson nasceu em 1980 na Freguesia do Ó, mesmo bairro onde fomos apresentados e onde a história que Deus escreveu para ele começou.
Junior estava com 14 anos, quando foi a essa igreja e recebeu aquilo que classificou como um chamado de Deus. Esse chamado dizia que Junior teria uma missão que se revelaria com tempo. Por meio dele, Deus fundaria uma comunidade com a qual poderia ajudar muitas pessoas.
Aos 21 anos, Junior fundou essa comunidade e lá vive com sua esposa, as duas filhas e outras pessoas que também passaram a fazer parte da família e que, assim como ele, decidiram dedicar a sua vida em prol de ajudar o próximo.
Localizada em Mairiporã, a Comunidade Fala Senhor é um sítio modesto, mas muito acolhedor, que Junior descreve como uma comunidade católica de leigos que vive em função, principalmente, da evangelização das pessoas, mas não só da evangelização, como também de projetos sociais.
Daniela diz que a função da comunidade, pelo que ela participou, é ajudar a pessoa a ter uma intimidade maior com Deus, conversar com ele e desenvolver mais o lado espiritual que hoje se perdeu muito na sociedade.
Há casados e solteiros na comunidade, cada casal tem a sua casa e os solteiros vivem em uma casa masculina ou feminina e cada um tem seu espaço. Todos participam da mesma realidade, pois vivem de doação e compartilham da mesma espiritualidade, a vida não se limita ao espaço familiar, mas se estende a comunidade onde se compartilha o pão em uma grande comunhão.
Além das pessoas que moram na comunidade, há muitos visitantes que buscam auxílio espiritual e que vêm participar dos retiros que ocorrem na comunidade. Os retiros têm como objetivo retirar as pessoas da vida cotidiana para que elas dediquem esse dia para Deus, para refletir, para rever a vida. Esses retiros acontecem a cada 15 dias e é um dia que as pessoas decidem passar com Deus.
Daniela é uma das pessoas que fez alguns retiros na comunidade como, por exemplo, o de cura interior, um retiro feito para pensar no passado, na vida de hoje para trás. Ela diz que o retiro tem uma parte coletiva e uma parte individual.
Em um primeiro momento eles fazem oração em conjunto, são convidados a orar na capela e vão a um lugar tranquilo perto das árvores para reescrever a sua própria história. Em um segundo momento, dá-se continuidade aos sentimentos e lembranças que foram revividos e é feito um atendimento individual para se trabalhar em cima de cada história. Depois disso é feita a partilha para dizer qual parte foi boa e qual foi ruim, mas só compartilham a própria história aqueles que quiserem, pois ninguém é obrigado a nada.
Esse auxílio não é só espiritual, pois Daniela também diz que a comunidade ajuda com trabalhos sociais, embora ela não tenha participado de nenhum nesse sentido.
Atualmente Junior está com um projeto de empresários católicos, onde os empresários aprendem que ser empresário não é só encher o bolso de dinheiro e viver uma vida totalmente omissa de valores das coisas, mas que ame seu trabalho com Deus de forma que trate bem os seus funcionários, pague um salário justo, que atenda bem os seus clientes, que haja com honestidade, pois ele diz que hoje o meio corporativo está muito poluído nesse sentido. Assim, seu objetivo é mostrar aos empresários católicos que é possível fazer essa diferença.
Na mesma época que começou o projeto de formar uma comunidade, Junior conheceu sua esposa Simone e diz que antes mesmo de dar um beijo nela lhe disse sobre o seu chamado que se ela não quisesse aquilo eles já terminariam naquele momento.
Simone estava com 24 anos quando conheceu Junior, formada em Direito, estava trabalhando na área jurídica de uma grande empresa da área da saúde, mas não exercia a advocacia porque não tinha a OAB.
Simone diz que conheceu Junior em uma das pregações dele. Ela acompanhou uma amiga em um grupo de oração onde lá estaria ele e foi onde o encontrou, depois disso não tiveram mais contato, nem amizade, mas 2 anos depois ela o reencontrou, acabaram trocando telefone e começaram a namorar.
Simone diz que assim que pensaram em namorar Junior contou a ela sobre o chamado dele e que se ela quisesse namorar e se chegasse a casar com ele, ela teria que aceitar esse chamado e morar em comunidade de vida com ele. Ela aceitou, embora talvez nem tivesse ideia da dimensão que se tornaria esse chamado.
Para a esposa de Junior, o fato de viver da providência, não ter salário, é difícil, pois não tem uma regra para o descanso, para o lazer, para a cultura, para a educação das crianças, é tudo pela providência. Mas ela acha bonito o trabalho do marido, pois acredita que é importante.
Apesar das dificuldades, Simone não se arrepende de ter feito essa escolha e se pudesse faria mais coisas, ajudaria mais, mas não pode devido à tarefa de cuidar das filhas e de outros afazeres domésticos e da comunidade.
Antes de viver em comunidade católica Junior era gerente comercial e trabalhou em muitas empresas até chegar o momento em que teria que decidir se viveria em comunidade ou continuaria trabalhando fora. Foi aí que optou em consenso com a sua esposa que viveria somente do trabalho na comunidade.
Hoje, Junior faz muitas missões pelo estado e até para fora do estado, ele já foi para Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia.
Inclusive foi na Bahia que encontrou uma das histórias que marcaram a sua vida.
Junior conta que foi pregar em uma escola da Bahia e era tudo diferente, porque teria que dar palestra para crianças de 8, 9 e 10 anos de idade, coisa que não estava acostumado.
E no meio da oração, havia um garotinho que chorava compulsivamente ao ponto que tiveram que retirá-lo da sala.  Depois que a oração havia acabado, Junior foi conversar com o garotinho que lhe disse que estava sofrendo muito.
O seu pai tinha sofrido um acidente de moto fazia 6 meses e estava em SP, porque não havia tratamento na Bahia. Por causa do acidente, o pai teria amputado uma das pernas e a mãe teria arrumado outro homem que o garoto era obrigado a chamar de pai. O que mais comoveu Junior foi que garotinho disse que queria a família dele de volta, não só o pai, mas a sua família de volta. Essa é uma das tantas histórias que Junior escuta desde que começou o seu trabalho como missionário.
Já chegaram a dizer ao Junior que ele era louco por largar tudo para viver de doação. Mas diz que depende muito do ponto de vista do que é largar tudo. Para o outro, ele largou tudo, mas para Junior, ele largou o nada para viver o tudo, porque se sente feliz fazendo isso.
Uma vez perguntaram para filha dele na escola o que o pai dela fazia, ela poderia responder um monte de coisas, “meu pai apresenta um programa na TV século 21” ou “o meu pai canta”, mas ela disse: “o meu pai ajuda as pessoas”.
Junior diz que suas filhas não são obrigadas a viver do mesmo jeito que ele, porque elas precisam viver as coisas de criança que são próprias da idade delas.
Por causa disso, Junior não tem dúvida das escolhas que fez e não se arrepende delas, diz que até hoje ele recebe propostas de emprego, mas não se sente atraído por isso, pois quando Deus dá uma missão a alguém ele prepara a pessoa pra isso.
Além de ser missionário, Junior também é cantor e está produzindo seu primeiro CD de evangelização. Trabalha na TV católica pela internet e faz trabalhos para rádio e TV. É assessor de comunicação do bispo da Diocese de Bragança e faz direção do programa do bispo que vai ao ar para mais de 10 rádios. Também chegou a apresentar um programa na TV Século 21 durante 4 anos, mas por motivos administrativos, foi tirado do ar. O programa parece que voltará no próximo semestre e Junior torce para continuar apresentando.
Junior também está escrevendo um livro que se chama “A História que Deus escreveu pra mim”, que não é autobiográfico, mas fala sobre histórias de famílias que encontram no amor de Deus a solução para os seus problemas.
O missionário participa de muitos projetos e tem uma vida bastante ocupada, mas Junior está sempre disposto e pronto a dar uma palavra de apoio, de compreensão e de força. Muitas pessoas deram depoimentos de como encontraram soluções para sua vida com as palavras dele e por isso é tão querido nos lugares onde passa. Pelo menos foi assim quando Junior esteve fazendo uma palestra na Paróquia Santa Cruz de Itaberaba.
As suas palavras sabem alcançar o coração daqueles que ouvem, mas acima de tudo, as suas palavras alcançam as pessoas no que elas mais precisam.

Talvez, ser um missionário, seja mais do que pensamos, pois, ás vezes, está além da nossa compreensão…

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