sábado, 19 de abril de 2014

Educação em foco: Franco da Rocha e os problemas da escola

Quando se desce na estação ferroviária de Franco da Rocha encontra-se um grande calçadão onde ficam as principais lojas do centro, as obras ao redor do rio mostram que a cidade está tentando resolver um problema que já existe há muito tempo. Franco da Rocha é conhecida pelas enchentes que ocorrem em épocas de muita chuva, o que demonstra que a cidade enfrenta graves problemas de infraestrutura, mas esse não é o único desafio.
A educação, por exemplo, é um dos maiores problemas apontados pelos docentes que lecionam nesse local.
Com um portão de ferro pintado de azul, já desgastado pelo tempo, a escola pública Maria Aguilar Hernandez, que se localiza no bairro do Jardim dos Reis, esconde um lugar pequeno onde se distribuem 11 salas de aula em dois andares. Há uma cantina com bancos e mesas de concreto, um jardim com muitas plantas e flores vermelhas que exalam um bom perfume, uma caixa d’agua que parece um farol de ilha, a sala de professores, a sala de inspeção e a sala da diretora.
O piso rústico do pátio, um corredor que leva a outras salas e as escadas do piso superior, salas de aula pequenas com lousas, mesas e cadeiras de madeira enfileiradas umas atrás das outras, um cheiro forte de giz que faz espirrar, os desenhos das crianças pintados estão grudados nas paredes, o lugar está vazio, mas dá pra imaginar como seria se as crianças estivessem na classe.
Na hora do intervalo, as crianças gritam, correm, caem, choram, se levantam e correm de novo até a hora do lanche acabar, quando todas elas gritam ao mesmo tempo dando o sinal, como uma sirene, de que está na hora de voltar à aula. Alguns estão tímidos, olham e saem correndo, mas tem o João que diz “Oi” e logo em seguida sai correndo também.
Um prédio vazio, feito de concreto e ferro, pode ser facilmente preenchido com o entusiasmo, gritos e correria das crianças, elas dão vida ao lugar.
Foi nessa pequena escola em meio à gritaria das crianças que a diretora, uma mulher de altura mediana, pele morena, olhos e cabelos escuros aparentando estar nos seus 40 anos chega ao pátio vestindo uma calça jeans, uma blusa preta sem decote que lhe cobre os ombros e uma sapatilha de couro escuro. Ela anda rápido e com firmeza, mas fala devagar, com calma , prestando atenção ao seu redor.
Marilene Freitas é uma dessas pessoas que positivamente enxergam o mundo, ela tem a habilidade de ouvir com atenção os alunos, professores, pais e visitantes, sua atenção é voltada para fazer de onde trabalha um lugar onde todos possam lecionar de maneira mais independente, mas sem perder o foco de ensinar com responsabilidade e respeito.
Sua vida foi marcada por muitos desafios, pois ela tem dislexia, que só descobriu quando já estava no antigo Ensino Médio, mas isso nunca a impediu de seguir adiante e realizar o seu sonho, dar aos alunos aquilo que quando era aluna não teve, atenção e carinho para um problema que poderia ter sido diagnosticado mais cedo se os professores tivessem observado que sua timidez não era motivo de bom comportamento, mas de algo muito mais profundo.
“Eu decidi que queria ser professora quando eu descobri que eu tinha dificuldade na fala, no pensar… Eu vi que lá atrás não foi trabalhado de acordo”, disse Marilene.
Formada em Educação Física e Pedagogia, a educadora é diretora da escola desde 2001, e para ela é evidente que as dificuldades existem, mas é possível contorná-las.
Marilene diz que a escola de hoje não está mais nos moldes da que existia 20 anos atrás, pois antigamente não havia trabalho diferenciado para os alunos, que eram mais copistas do que os de hoje. No entanto, a sociedade atual exige que se trabalhe de acordo com as necessidades dos alunos, pois eles estão mostrando que são diferentes.
“A educação mudou muito, antigamente a educação dos pais era outra, a sociedade era outra, as crianças eram outras, os brinquedos eram outros, isso quer dizer que temos que acompanhar. Mas a escola em si, a carteira é a mesma, a lousa é a mesma… Nós estamos tentando mudar, mas é difícil”, contou.
As crianças são diferentes, porque têm vivências e experiências diferentes, elas vêm de casas, de ruas, de bairros, de cidades e até de estados distintos, portanto carregam histórias de mundos individuais. Diante disso, a escola é o espaço, onde além de aprender os conhecimentos específicos, as crianças aprendem a interagir e respeitar pessoas que não pensam e não agem iguais a elas.
Mas como levar em consideração essa pluralidade cultural e inserir no espaço escolar as vivências dos alunos para formá-los capazes de se respeitarem?
O desafio já começa com a dificuldade dos professores ensinarem essas crianças de regiões diferentes do país.
Marilene diz que “a maior dificuldade que a educação brasileira enfrenta é essa diferença de regiões, a educação é diferente entre as regiões brasileiras, porque a realidade de mundo é muito diferente”.
Além da diretora, um grupo de professoras também deu a sua opinião sobre os problemas que a educação brasileira enfrenta. Para Rosilene Soares, uma das professoras, essa dificuldade também existe.
“As dificuldades estão em alfabetizar com salas superlotadas, alunos com dificuldades de aprendizagem e alunos que vem de outros estados com outros dialetos”, disse Rosilene.
Já para a professora Daniela Fabrette, que também dá aula na escola e já foi diretora, a dificuldade é a organização das políticas públicas, pois orienta os docentes de uma maneira que visa acabar com o analfabetismo, porém não dá subsídios e recursos para isso.
A qualidade do ensino se dá por menores jornadas de trabalho e salários mais dignos, esse também é outro ponto colocado pela professora Elisangela Oliveira, que também leciona na escola. Para ela, a educação brasileira tem suas qualidades, mas poderia melhorar, principalmente, na carga horária.
Outra questão levantada pelas professoras é que, além de melhorar as condições de trabalho, seria necessário ter mais recursos tecnológicos, pois fazem-se muitas propagandas do que se tem na escola, mas os recursos não chegam de fato.
Daniela completa que os entraves que a burocracia da educação pública brasileira possui, causam mais um empecilho para organizar de fato as características do país. Busca-se muito o modelo de educação que não convém com a realidade do Brasil. Se tivéssemos o nosso próprio modelo de educação, levando em conta a cultura e diversidade do país, a educação seria bem melhor.
A diretora Marilene aponta outros problemas que a educação pública enfrenta como, a falta de participação dos pais na vida escolar dos alunos, a organização do espaço escolar (os alunos sentados um atrás do outro, o modo de exposição da matéria com lousa e giz e outras coisas), e as abordagens que a escola faz em relação às dificuldades de aprendizagem que o aluno tem.
“As crianças não aguentam ficar 5 horas em uma sala de aula, sentadas uma atrás da outra, tanto que no intervalo eles correm para lá e para cá, então não adianta falar para eles ficarem quietos que eles não vão ficar, eles têm que soltar a energia que está guardada”, afirma Marilene.
A escola ainda enfrenta a nova configuração da família: muitos são filhos de pais separados, de homens e mulheres do mesmo sexo, de pais ou mães que estão presos, e também há aqueles que são criados pelos avós ou outro parente. Tudo isso deve ser levado em consideração, mas muitas vezes a escola não está preparada para enfrentar esses desafios.
Por essas e outras razões, a professora Rosilene diz que é importante ter na escola outros profissionais como o psicólogo, o fonoaudiólogo, o assistente social, entre outros, pois os problemas refletidos no espaço escolar vêm de fora e esses profissionais poderiam melhorar e muito a qualidade da educação no Brasil.
Embora a diretora e as professoras apontem muitos problemas na educação brasileira, nenhuma delas diz se arrepender de ter escolhido a profissão e demonstram gostar do que fazem.
“Há muitas dificuldades, mas o prazer de ver uma criança alfabetizada me traz muita alegria”, disse a professora Elisangela.

A velha escola e as novas tecnologias

De cada mil alunos, quantos saem do Ensino Médio sabendo ler, escrever ou fazer uma conta?
Uma pergunta como essa seria facilmente respondida por dados estatísticos que são divulgados por sites do governo sobre a educação brasileira. Mas aqui esse não é o objetivo, pois a questão que devemos responder é por quê?
O que se vê claramente é que esses alunos já nasceram na era tecnológica e estão cada vez mais dependentes e conhecedores desses assuntos. Muitas crianças já manuseiam um celular ou um computador melhor do que um adulto.
No campo da sociologia ou da história, em análise mais profunda, é possível chegar à conclusão que novos espaços sociais estão se configurando na esfera pública e privada.
No entanto, a escola que deveria ser espaço de aprendizagem dos alunos está cada vez mais afastada dessa realidade da tecnologia, significa que a escola não está acompanhando essas transformações de espaços físicos e sociais, por causa disso, não desperta mais o interesse dos alunos.
A vida na sociedade atual exige velocidade e dinamismo, com isso as pessoas de hoje estão adquirindo informações com mais velocidade do que a escola está preparada para dar aos seus alunos.
Não se exige mais que alguém saiba digitar bem, que saiba as regras gramaticais da língua portuguesa ou que se saiba fazer uma equação polinomial, mas é necessário que as pessoas saibam navegar na internet, que tenham conhecimentos em Word, Excel e Power Point, que saibam escrever bem, com coerência e coesão ou que saibam fazer contas matemáticas simples. Se as necessidades são outras, por que a escola e seu espaço físico tem que continuar o mesmo? Esse é um dos muitos problemas que a educação pública brasileira precisa enfrentar e resolver ou esse país não irá para frente.

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